domingo, 2 de março de 2014

A Casa

Abriu a porta com alguma dificuldade. Jogou suas bolsas no chão e procurou logo a geladeira. Estava faminto. Procurava por qualquer coisa que poderia saciar a sua fome. Seu estômago “roncava” como quem dormia num sono profundo, movimentos peristálticos de um estômago sonâmbulo que se levanta no meio da noite para atacar a geladeira. Lá estava ele se deparando com um verdadeiro banquete, parecia sonhar, parecia sonhar acordado. Um estômago sonâmbulo que se levanta no meio da noite para roubar a geladeira e saciar a sua vontade de alimentar seus sonhos, alimentar seu estômago. Comeu ali mesmo, ali mesmo na cozinha. Pegava a primeira coisa que via e levava à boca, com ganância, e desespero, e angústia por ver toda aquela iguaria e não poder dividir com ninguém. Pensou em levar um pouco consigo, mas tinha pressa, ainda precisava fazer outras tarefas. Havia pouco tempo.

Após ter se deliciado com toda aquela refeição majestosa, decidiu tomar um banho demorado. Um banho demorado, mas rápido. Tirou a roupa, aquela roupa imunda, na verdade eram trapos que utilizava para cobrir esta ou aquela parte do corpo, abriu o chuveiro, ligou o aquecedor; estava agora contemplado com o ar quente que saia da ducha. Cada gota daquela água era preciosa. Primeiro havia aberto no máximo, depois percebeu que não poderia desperdiçar aquela preciosidade. Deixou que caísse pouco. Vagarosamente a água escorria pela sua grossa pele, o vapor limpava seus poros. Uma pele baça e espessa que o tempo e a vida trataram de dispor sobre o corpo. Passava o esfregão com força que retirava todo o peso que carregou por toda a vida, um peso de solidão, tristeza, ódio, sofrimento, depressão, e poluição da cidade. Tudo isto parecia escorrer sobre o corpo com aquela água milagrosa que descia sobre ele, como uma cachoeira mágica que cura os ferimentos ao banhar-se nestas águas. Sua pele tornara mais clara; toda a sujeira, dor, miséria, maldade, todo o desgosto, abatimento, desprezo, desilusão, medo foram embora ralo abaixo. Via-se limpo e curado. Limpo e curado pelas águas milagrosas do chuveiro que tornara sua pele leve, branca como a neve, uma pele de cetim aveludada. Mas tinha pressa, havia pouco tempo.

Saiu do banheiro nu, entrou no quarto ainda molhado, não queria perder aquela magia, aquele encanto. Atirou-se na cama como quem encontra sua amada que não via há anos. A casa era a sua amada. Ele estava fazendo amor com a casa, deliciando cada cômodo. Distanciados porque não queriam que esse amor reinasse; tinham raiva, desprezo, inveja, e tomaram-no tudo o que ele possuía, o seu amor, tomaram a maior riqueza que ele poderia ter, sua família e sua casa.

Aquele momento era, para ele, único, era recordar os belos momentos, ainda que difíceis, mas, momentos especiais de sua vida. Jogou-se na cama, abraçando-a, beijando-a, amando-a, enrolando-se no travesseiro, ocupando todo aquele corpo seminu, coberto apenas por um liso lençol. Estava em sua segunda lua-de-mel, mas seu amor teria que ser abandonado, não poderia ficar ali por muito tempo. Colocou o despertador para tocar uns vinte minutos mais tarde. Dormiu entrelaçado com os travesseiros e lençóis. Vinte minutos depois, o despertador toca. Ele se levanta apressado. Já não havia mais tempo. Pegou algumas roupas no armário, vestiu-as, colocou outras em uma bolsa, foi até a geladeira e retirou algumas sobras rapidamente. No banheiro pegou sabonete e toalha, e um pouco daquela água milagrosa. Estava terminado. Precisa partir. Deu o seu último olhar para aquela casa, beijou as paredes, o chão, a mesa, o sofá, despediu-se chorando do seu amor. Precisava encontrar outra casa, sussurrou para uma das paredes dizendo que não era traição, era preciso, não havia outra escolha. Então partiu, antes que o dono da casa chegasse e chamasse a polícia.


Vinni Corrêa
13 de abril de 2007



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