domingo, 2 de março de 2014

À Noite Trago Errante

Neste instante onde tormenta também é luz à sombra
A perfurar-me, dolorosa irradiante,
Enchi! E a que cabe essa dor? Transbordando eternamente,
Bradando ira diante dum vermelho berrante,
Trombeta tonante que ainda não silencia nesta findada tarde,
E não escapam insetos zumbidores em seus rasantes.
Tentação! Entediante vinho, minha ebriez ressonada
Desincha a ressumbrada estrada escarlate, sobre espinhos, relutante.
Mantém ante a coroa de acúleos, apertando as lembranças,
O corpo preso ao ecúleo dilacerante.
Mãos minhas, arrebentem em nervos antes do alvor
O repique da luminescência sonante,
Desencantem a recalcitrante tromba-d’água destas ventas
Num baqueio, em que tromba, nuvem com nuvem, feito elefantes.
Divaga sonolenta a distante planura d’alma
E abranda a eclosão de pensamentos lancinantes
Num vazio atenuante, eco, que desencoraja alimentar a carne,
Prestando-me a estranhos e reluzentes desejos em uma boca balbuciante.
Em ar de terna loucura viajo, alucinante, e perco o fôlego,
Queimo, inspirando brilhos matizados em fogo maçante,
Durante contrastes de sonhos lacônicos,
Tão quanto um arfar enervante. De minha escotilha, insone, vigio neste esquife oscilante.
Preso e vacante, meu corpo, içado pelo guindaste desarrazoado
Por nevralgia de um dédalo da interna fantasia obcecante.
A mente, agora, com sono consonante,
Demente acorda com o cônsono relógio incessante. 


Vinni Corrêa
20 de março de 2008



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