domingo, 2 de março de 2014

A Visão da Chegada das Trevas e suas Interpretações

I

a) O Sonho de um Santo

Sonhei que no alto de uma nuvem
Havia uma formosa flor
De suas Pétalas incandescentes
Raiava a imagem do imperador

Um dia a nuvem cerrou todo o céu
E já não se podia mais ver o fulgor
A beleza perdeu toda a Humidade
Causando-lhe um irreversível bolor

O Húmus povoou cantos cambos camalhões canções
Por todas as raízes se preencheu o rubor
Frutos metalizados adocicaram o lavor
A carne lavada é legada às tensões

Novas plantações engolfaram o céu
Ressoou por trás das frias planícies o ardente clangor
Cremaram a floral felicidade longínqua
Quais frutas darão ciclos de dulçor?


b) A Interpretação do Santo

Reinava a notável grandeza de um rei, único e absoluto, que trazia a luz a todo o reino, tão majestosa é a sua figura adorada por seus obedientes súditos que aceitam com louvor o destino pelo qual lhes foi escolhido. Fortes lufadas vieram e trouxeram a sombra da impureza cobrindo parte da manhã dos nossos dias, como a lua eclipsa o sol. Ainda impera sobre a maldade o bem maior. O tempo está mudando! O tempo está fechando! novas lufadas recrudescerão e a escuridão infestará a Terra de restos humanos e sua podridão, destruirá a castidade derramando o sangue das virgens, os impuros, em lúbricas árvores, ofertarão uma maçã envenenada, mais encorpada, e muitos ainda sentirão fome, muito mais fome. O tempo está mudando! O tempo está fechando! novas lufadas trarão nuvens carregadas que despejarão o calor dos atos profanos e o arrepio da brisa que resvala nos pêlos, os impuros, capazes de arrancar, em uma unissonância de mãos, a seiva da terra e dos céus. Sementes malévolas penetrarão o solo terreno e contaminarão o céu como uma goiabeira, a desordem instaurar-se-á e como o gelo tocando o corpo confundirá a sensação do que é o bem e o que é o mal, o céu cairá sobre a Terra, a Terra sobre si mesma, e assim será até não restar mais nada.


II

a) O Sonho de um Sábio

Sonhei que no alto de uma nuvem
Havia uma formosa flor
Mas suas pétalas arderam em chamas
Com a chegada do Rei opressor

Um dia a nuvem cerrou todo o céu
Tudo se transformou em cinzas e langor
O tirano reteu dela toda a Humidade
Causando-na um irreversível bolor

O Húmus povoou cantos campos caixões canções
Na terra sem arado corpos enrijecidos de torpor
Colheita de fumaça de crânios em ardor
A carne lavrada é levada em porções

Nasceu da cópula do Rei com as pétalas o transgene
Exalou por trás das ardentes planícies o frio olor
Cremaram a floral felicidade remota
Quais frutas trarão de volta o clamor?


b) A Interpretação do Sábio

Em meio ao negrume da vida, ou melhor, sobressaindo-se por cima da ignorância mas com suas raízes originando nela, ainda sorria com o canto da boca o floreio imarcescível da calça desabotoada. A donzela, perspicaz e muito saliente, também não acreditava no mimetismo de forasteiros que se aproveitaram de sua delicadeza, arrancaram-na as pernas e os braços quando chegou a tempestade, e em gotas de chuva ácida queimou tudo o que havia por florescer. Secou dela o nutriente, lançou raios de estômago e infestou-lhe a boqueira, e ela não mais sorriu; cerrou-lhe ainda os lábios e todo o encanto, estática permaneceu seca feito palha de carne amarrada uma tira na outra, prestes a ser consumida pelo fogo; o que virá a acontecer? - indagou o sonho - queimar-se-ão todas as folhas, algumas serão trânsfugas, o vapor que sai das costas torna-se-á sólido mas continuará a queimar, disse o sonho, e nada será mais como era, somente haverá o escuro, somente ele e a palha.



Vinni Corrêa
13 de novembro de 2009



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Pierre-Cécile Puvis de Chavannes - O Sonho

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