terça-feira, 4 de março de 2014

Adeus Ranzinza

Adeus ranzinza
Tu, meu parrudo voraz limpa trilho,
Que ferozmente erguias os lábios mostrando
Os caninos ebúrneos de intenso brilho,
Cravados a puxar um sujo pano
E a rosnar, como quem morde, como quem brinca.

Adeus ranzinza
Meu moleque que roubava à surdina um osso do lixo.
Tu enfiavas minhas meias debaixo dalgum canto,
Espreitavas de rabo de olho e nunca nos olhava fixo,
E sonso, esfregavas o focinho gelado implorando
Perdão. Não há quem melhor finja.

Adeus ranzinza
Tu brilhavas os olhos, espanavas o rabinho e espichavas as orelhas
Quando eu dizia "imbecil" e tu entendias "vamos descer Bill".
Vinhas correndo feliz em direção à coleira,
E se eu não a pegasse, davas latidos mil.
E depois, já na rua, continuavas a latir ainda.

Adeus ranzinza
Tu não podias ficar sem meu pai que na varanda uivavas a noite inteira,
Não adiantava chamar-te pelo nome e nem assoviar fiu fiu.
Quando alguém saia corrias para a porta, não davas bobeira,
Mas um biscoitinho tornava-te uma fera gentil.
Às vezes pedias mais um como pechincha.

Adeus ranzinza
Quando no banho eu dizia sacode e tu sacudias molhando tudo,
Ainda úmido corrias pela casa te esfregando pelo chão.
Se eu pedia um abraço tu vinhas com as patas em minha perna, e cedias o ar carrancudo,
Apertava-o forte como quem abraça um grande irmão,
Embora se muito forte eu apertava, soltavas rezinga.

Adeus ranzinza
Tu que eras valentão, firme porte, todo troncudo,
Mas não podias sair na rua e dar de cara com outro cão,
Colocavas o rabo entre as pernas e te metias atrás de um arbusto,
Empacavas na calçada, com olhar de dar dó, eras o oposto de um alão.
Teus ganidos, cainhados, latidos... Bill, meu choramingas.

Adeus ranzinza
Deitado em minha cama descobrias a colcha e recostavas o rosto no travesseiro.
Todo enrodilhado dormias como uma criança, enchia o lençol de baba.
Em noite de fogos tremia no escuro do banheiro.
Sozinho caçavas o próprio rabo e abocanhavas moscas pela sala.
Mas foi triste quando veio tua míngua.

Adeus ranzinza
Tu lutaste até o fim, forte aguentou o que pode, foste guerreiro.
Reergueste-te, aguentaste as dores do tumor e da pata amputada.
Apesar das mordidas foste um bom camarada, um bom companheiro.
Adeus ranzinza, adeus, pois em nossas lembranças permanecerá a tua graça.
Adeus ranzinza, cremado, virou cinza.

Adeus ranzinza!


Vinni Corrêa
14 de abril de 2011









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