domingo, 2 de março de 2014

Troca Voluntária

Um riquíssimo comerciante bate à porta de um pobre freguês:
- Bom dia, meu nobre heterótrofo rapaz!
Trago-te hoje os melhores produtos da praça; são três:
Um bocado de amor, uma porção de tolerância e um punhado de paz.

O freguês observa e finalmente aponta:
- Tenho sim o interesse em comprá-los,
Mas tolerância tenho com muita pompa.
Que tal negociá-los?

Esperto, o vendedor já se inteirava da situação do frangalho:
- Para ti, que és um bom senhor, a seguinte proposta ofertar-te-ei:
Pagamento facilitado parcelado no crediário.
É pegar ou largar, meu rei!

Sentindo-se enganado, o homem criou contenda:
- Não vês o tamanho absurdo que me propões?
Tu vês que estou necessitado e pões a venda,
Com juros e taxas, aquilo que deveríamos todos ter em nossos corações.

Ainda crendo negociar, o comerciante responde recolhendo as mercadorias:
- Infelizmente não posso dá-los de favor.
Mas posso, por um bom preço, vender a ti fantasia,
Que fará com que te sintas em paz e amor.

Impaciente, o rapaz não vê solução:
- Tudo bem, comprarei paz e amor, mas faça por uma bagatela.
Ofereço-te a seguinte condição:
Dou a ti em troca bastante esperança e o pouco que há em minha favela.

Caindo em gargalhada, o vendedor dá o recado:
- Esqueças do negócio, não preciso de ilusões.
Quero dinheiro, não essas coisas de pobre coitado.
Enquanto gente da tua estirpe lamenta, ganho dinheiro com estas comoções.

Repugnado, o freguês o olha com pesar:
Quem tem dinheiro e não se indigna com a pobreza alheia, paz e amor não pode ter.
Quem indignação possui, um pouco de cada tenta conquistar,
E aos outros tenta abrigar.
Em harmonia não se pode conviver
Com aquele que não abre mão do luxo para a felicidade alheia querer.

E continua ele em tom provocador:
- Se tu fosses uma pessoa generosa e respeitável comigo
Não tentaria vender-me paz e amor, como faz um aproveitador,
Mas estaria a bater em minha porta para oferecer um ombro amigo.

Surpreso, o empresário é direto:
- Tua ignorância te torna incapaz de ver minha solidariedade.
Quero tirar teu corpo e alma da miséria, queres ensejo mais belo?
Veja a situação em que te encontras, alimentando-se de farelos.
Compreendo que não tenhas como pagar pelos meus produtos, falo-te com sinceridade.
Mas que escolhas terás se apenas comprando de mim conquistarás a liberdade?

Vendo-se sem saída, o freguês aceita:
- Não é justa a tua troca, mas, como tu disseste, que escolha tenho?
Tu estás a fazer-me um empréstimo, e com juros pagarei, aumentarei tua receita.
Ganhas mais do que ofereces, e sem o menor empenho.

O mercante sorriu, satisfeito com a negociata, e recolheu sua maleta. E a paz e o amor que seus fregueses compraram eram bens não duráveis, e a tolerância, sucata e dejeto destes produtos, encontra-se espalhada por toda esquina. 


Vinni Corrêa
29 de julho de 2010



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